27/02/09

video

Já por cá passaram os melhores pianistas do planeta. Faltava o GATO BENEVIDES. Assunto resolvido: ele estará nas "Quintas" em Agosto, abrilhantando a sessão dedicada à obra de Joaquim Carapau, uma das vozes mais líquidas da poesia portuguesa contemporânea.


Bilhetes à venda no bar da praia dos Alteirinhos, Zambujeira do Mar.

João Gesta.

HÁ UM LAGO NA INFÂNCIA

Há sempre uma casa antiga na infância
lá para cima
um passo de desarmonia
um vestígio de escadas retiradas
na primeira oportunidade
um lago, há também um lago
na infância sem barco que o possa
atravessar e uma pedreira branca
ambos sem utilidade
e algumas crianças
que pintam a vaga pocilga de pedra
e riem e apanham rãs em vez de fruta
e apanham uvas, também apanham uvas
de outra nacionalidade
e antes de se escrever durante a noite
contra o sono
havia um caminho de terra
incerto apenas nas suas pedras
na útil ambiguidade do solo

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

26/02/09

MAIS POESIA DE FILIPA LEAL

LINHA FONÉTICA

Era uma linha fonética no vidro.
Linha como árvore obsessiva deste livro,
como linha verdadeira, como página
que se organiza por causa dela.
Linha que não era de comboio, linha sem agulhas
penduradas, sem linha da mão, sem linha
de gente do outro lado da linha, de gente
que quer manter a linha. Linha fria de transparência,
fria de vidro, de janela deitada, de tentativa de poema.
Linha sem o branco da noite nos outros, sem o pó
da noite nos outros. Assim era a minha linha:
linha realmente fonética, absolutamente inalterável.


AFINAL, A MEMÓRIA

Afinal eram iguais os homens
as mulheres
vistos de cima
quando abanavam ligeiramente a cabeça
para a frente e para trás
ao mesmo tempo,
ou se inclinavam nas horas da infância, da minha infância,
ou quando mexiam no cabelo uns dos outros
para eu adormecer.
Afinal a memória era um lugar parecido
com a memória, e o sonho era um lugar parecido
com a memória, e nós talvez fôssemos todos, na verdade,
parecidos
uns com os outros.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

MISSA

Crónica de Cesaltina Pinto publicada hoje na revista VISÃO
a respeita do ciclo Quintas de Leitura.
PARA LER CLICAR SOBRE A IMAGEM

25/02/09

A POESIA DE FILIPA LEAL

TEVE NESSA TARDE UMA CRIANÇA

Teve nessa tarde uma criança
desconhecida a segurar-lhe na mão.
Uma criança agarrada com força, uma criança
que apanhou em flagrante a sua mão vazia
e a ocupou como território de criança.
O dia começara assim: primeiro o rio, depois o verde
no terreno da família, agora o mar.
Foi na terceira tentativa que encontrou a criança,
criança a encontrá-la de repente, quando ia caindo
o sol. Criança possessiva agarrada à apatia desse dia
rimado: criança rima com esperança, criança rima.
E ela tão sem linguagem, tão sem versos possíveis,
tão sem a criança anterior. Foi na terceira caminhada,
quando a incerteza parecia cada vez maior, quando
o pensamento não acompanhava o passo decidido
junto à marginal, quando o pai da criança lhe falou
no perigo de dar a mão a estranhos, sem entender que
o verdadeiro perigo
era a mão outra vez vazia de criança.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

Comentário


O programador João Gesta recebeu por email este comentário a respeito da última sessão de Quintas de Leitura - O Acervo da Quietude - espectáculo dedicado a Daniel Mia-Pinto Rodrigues, no passado dia 19 de Fevereiro. Obrigada. São estas palavras que nos movem.

Caro Senhor:

Venho por este e-mail dar-lhe os parabéns, extensíveis a toda a equipa, por mais uma sessão das "Quintas de Leitura".

Tendo assistido já a várias sessões, continuo a achar que a mais valia destas duas horas, em que nos desligamos do que se passa lá fora e entramos numa realidade pararela levitando sobre os poemas e notas de música, é o cruzamento entre a literatura, a música, as artes plásticas e as próprias performances.

Como leitor, escrevinhador e apreciador de poesia apenas posso desejar continuação de bom trabalho.

Com os melhores cumprimentos,

Tiago Montenegro

23/02/09

FILIPA LEAL NAS "QUINTAS DE LEITURA"

Iniciamos hoje a publicação de alguns poemas de Filipa Leal que serão lidos na sessão "Havemos de ir a Viana", dedicada à sua obra.

O PESO DOS LIVROS

Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.

Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.

E um hálito branco a querer ser página.

(Filipa Leal, in "O problema de ser norte"/ Deriva Editores)

DEPRESSA


Para ler clicar sobre a imagem.

A quietude


Isaque Ferreira na performance - «Cortar a fogo»

O pianista Álvaro Teixeira Lopes


Álvaro Teixeira Lopes e o poeta da noite Daniel Maia-Pinto Rodrigues



Adriana Faria


Adriana Faria


Rute Pimenta


Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Daniela Dias


Ana Free

Blake Brandes e Ana Free



Ana Free

Fotografias captadas na última sessão de Quintas de Leitura, na noite de 19 de Fevereiro, por Sara Moutinho.

20/02/09

A nossa cidade




Hoje na edição de Março da revista Rotas & Destinos, por Miguel Somsen, o que pensam João Gesta, programador da Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre e valter hugo mãe, um dos nossos escritores de estimação, sobre «O Porto da Noite para o dia».


São 16 páginas para descobrir tudo o que viu, ouviu e experimentou um Lisboeta em visita à nossa cidade.

19/02/09

PARABÉNS Raúl Peixoto da Costa


Raúl Peixoto da Costa, o jovem pianista que participou na sessão de Quintas de Leitura de Dezembro passado ( sessão de lançamento da antologia Diga 33 - os poetas das Quintas de Leitura), acaba de vencer o primeiro prémio do concurso Alexander Scriabin, no conservatório russo em Paris.

Entre candidatos de todo o mundo, Raúl foi classificado em primeiro lugar e é o único entre os premiados que não é de nacionalidade russa.

Os prémios ainda não foram anunciados porque este concurso (9th INTERNATIONAL PIANO COMPETITION - February 16-19, 2009, Paris) termina hoje.

Na nossa sessão, em 18 de Dezembro, o jovem talento Raúl Peixoto da Costa interpretou ao piano temas de Bach, Chopin e Prokofiev, no grande auditório do TCA, deixando mais de 300 pessoas encantadas com a sua actuação.

Parabéns Raúl.

Fotografia de Sara Moutinho captada durante a actuação de Raúl nas Quintas de Leitura.

Conheça o conservatório clicando aqui.





Jornal Público - Edição de hoje.




Jornal gratuito DESTAK - edição de hoje.

O ACERVO DA QUIETUDE. HOJE, NUM TEATRO PERTO DO SEU CORAÇÃO

OS HERÓIS DESTA NOITE:

DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES
ANA FREE
ÁLVARO TEIXEIRA LOPES
ISAQUE FERREIRA
MAFALDA CAPELA
ADRIANA FARIA
DANIELA DIAS
RUTE PIMENTA

«Vou-me embora. Levo uma menina loira
muito nova
a despedir-se de mim.»

18/02/09

do Daniel Maia-Pinto Rodrigues


Poesia reunida.
Da Quasi Edições para comprar a aqui.

"OS NOVÍSSIMOS" NAS "QUINTAS DE LEITURA"




As "Quintas de Leitura" darão este ano uma atenção especial às vozes da "novíssima poesia portuguesa". Estão agendadas sessões com quatro importantes poetas desta geração: Filipa Leal, Miguel-Manso, Vasco Gato e Vítor Nogueira.






Publicamos hoje mais dois poemas de Vítor Nogueira, retirados do seu livro "Bagagem de mão" (editora &etc):

É AQUI QUE PASSAMOS OS DIAS

É aqui que passamos os dias, encarcerados
nos nossos próprios corpos.
Não sei qual de nós é mais velho.
Nunca houve qualquer prova que o mostrasse.
Diria que vimos os mesmos filmes,
ouvimos a mesma música.

Mas em que momento mudámos?
De onde nos vem esta incapacidade?
Deveríamos ser mais convencionais?
Pergunto isto porque às vezes parece haver
regras para tudo.

Entretanto, é de novo meia-noite
e ainda nos falta uma cidade.

À NOSSA

Três pessoas encostadas ao balcão,
tentando enviar uma mensagem de
socorro. Todos queremos estar aqui,
para quando formos salvos.

Do outro lado, há um tipo que se instala
numa mesa, espalhando amendoins,
descobrindo a sua vocação.
Um homem deve ter talento nos dedos,
saber fazer alguma coisa.

E, nisto, melhoramos a nossa visão
nocturna, mijamos na mesma latrina,
fazemos com que este lugar funcione.

Juntem-se mais, para cabermos todos
na fotografia.


Jornal de Notícias edição de hoje.

17/02/09

Vítor Nogueira nas "Quintas" a 23 de Abril.

Outro grande poeta que marcará presença nas "Quintas de Leitura".
A sessão intitula-se "Bagagem de Mão" e este poema abrirá a sessão:

A RAZÃO PELA QUAL O SOL AQUECE

O Sol aquece devagar. Sempre assim foi
na Rua Alexandre Herculano, a rua onde
o Senhor Gouveia um dia desejou ser poeta,
ao tirar pela primeira vez o chapéu a uma senhora,
talvez em meados da década de cinquenta.
De resto, o Senhor Gouveia nunca procurou
a razão pela qual o Sol aquece devagar a Rua

Alexandre Herculano. Nunca soube porquê,
mas acha bem.

(Vítor Nogueira, in "O Senhor Gouveia"/ Averno )

16/02/09

MIGUEL-MANSO NO TCA A 9 DE JULHO. TOME NOTA NA SUA AGENDA:

O PREC EM 2008

o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que

nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores

agora um amigo diz-me: "esta
revolução não dá um passo!"

concedo, mas não desisto

incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar

(Miguel-Manso, "Quando Escreve Descalça-se"/ Trama Livraria)

15/02/09

MIGUEL-MANSO. Um poeta a descobrir, já!

As "Quintas de Leitura" receberão no dia 9 de Julho o poeta Miguel-Manso numa sessão intitulada "Quando Escreve Descalça-se".
Em estreia absoluta neste blogue, alguns poemas deste jovem e genial poeta:

MEDITAÇÃO

o amor é como o trigo
a alguns já lhes chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão

esses sabem-no pela televisão

x - x

PROVISÃO DE HÁFIZ

os nomes
os navios
as águas

estão a sentir?

x - x

FOTO DE BREVE EXPOSIÇÃO

repartimos a regueifa de Pardilhó com as formigas de Odeceixe

x - x

CADERNO DA BIBLIOTECA

ser poeta sei agora
é mais do que usar amiúde
a palavra fímbria

x - x

Tudo isto e muito mais, num livro fascinante de Miguel-Manso ("Quando Escreve Descalça-se"), editado pela editora TRAMA.

11/02/09

O POEMA QUE FECHA A SESSÃO

Concluimos hoje a publicação dos poemas que serão lidos na sessão do dia 19 de Fevereiro, dedicada à poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

AZUL E VERDE

Há ondas a quebrar nas praias
nas paisagens que guardas de memória -
pequenas ondas das manhãs claras,
pequenas memórias das paisagens largas.

Haverá ainda nos remansos dos quintais
a tua corrida de criança no final das tardes,
e no verão que há por detrás das árvores
haverá a luz dourada dessas tardes longas.

Já pouco te lembras de ti nessas corridas,
da alegria que sentias nos jardins;
vagamente te vês a nadar nas ondas sossegadas -
brancura tremeluzente dos remotos areais.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)

Jornal gratuito METRO - edição de hoje.
(para ler clicar sobre a imagem)

10/02/09


O Acervo da Quietude aqui.

OS CONCERTOS NAS "QUINTAS DE LEITURA"

Tome nota na sua agenda. Sim, tem razão, alguns são imperdíveis:

Dia 19 de Fevereiro
ANA FREE

Dia 26 de Março
LULA PENA

Dia 23 de Abril
MAZGANI

Dias 14 e 15 Maio
LUCÍA ALDAO (Galiza)

Dia 18 de Junho
ALDINA DUARTE

Dia 9 de Julho
B FACHADA

Proibido ficar em casa!

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"

Falo-te de chuva
como quem diz que as minhas mãos
não se exaltam em revisitar-te o peito.

Falo-te de sol
como excesso de brilho entre nós.

Revejo todos os verdes
no peppermint do meu cálice
enquanto a janela abro
pouco depressa
sobre a tarde.

Falo-te de cansaço
como quem se sentasse
numa poltrona de lã.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Editores)

09/02/09

De que mais argumentos precisa para se juntar a nós?

Daniel Maia- Pinto Rodrigues fotografado por Pat


Ana Free na próxima sessão de Quintas de Leitura
Piano e performance em honra
de Daniel Maia-Pinto Rodrigues




Por onde passas descoses o tempo
deixas aberto
o princípio do sonho.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues



A próxima sessão das "Quintas de Leitura" realiza-se no dia 19 de Fevereiro, no Café-Teatro do TCA, às 22h00, com um espectáculo, intitulado "O Acervo da Quietude", que marca a 3ª presença do poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues neste ciclo.

Daniel, justamente reconhecido como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa dos anos 80, preparou para este espectáculo um guião com 20 poemas que incidem sobre a vertente mais lírica, mais nostálgica, mais serena, da sua obra.

As leituras estarão a cargo do próprio autor e ainda dos actores Pedro Lamares, Adriana Faria e Daniela Dias. O franco-atirador Isaque Ferreira apresentará uma performance líquida intitulada "Cortar a fogo".

Presença ainda do pianista Álvaro Teixeira Lopes que interpretará temas inspirados no obra do poeta convidado. O talento fotográfico de Mafalda Capela andará à solta nesta sessão, que se adivinha mágica.

E por falar em magia... o espectáculo fecha com um imperdível concerto acústico de Ana Free, numa das suas raras aparições no Porto.

Dia 19 de Fevereiro no TCA: uma noite cheia de estrelas.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues - poeta convidado

Álvaro Teixeira Lopes - piano

Adriana Faria, Daniela Dias e Pedro Lamares - leituras

Isaque Ferreira - performance

Mafalda Capela - fotografia

Ana Free - concerto acústico

Duas horas de pura magia. Nas "Quintas", pois claro...

UM DOS MAISW BELOS POEMAS DA OBRA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES

Enquanto tarda o incêndio

No inverno em séculos passados
falava-se de animais.

Junto à lareira comentavam os mais velhos
paisagens de sol
e o vento como sendo a distância
entre a noite e o bosque.

Nas manhãs frias olhava-se
com calma
a neve.

À volta dos sobreiros as crianças brincavam
agasalhadas
de azul.

Hoje, enquanto o incêndio tarda
vou sendo feliz
entre os sobreiros.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues,"Dióspiro"/ Quasi Edições)

06/02/09

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nas "Quintas de Leitura"

ASSIM VOASSEM

Dizemos às vezes
devagar sobre as pedras
enquanto o musgo alastra
rápido pelos troncos.

Assim voassem aves
quando por fim março
abrisse suas portas ao vento.

Assim às nuvens
árvores erguessem o verde -
grandes ramos sorvendo o sol.

x

DESFOCADO

As madressilvas alongam-se pálidas
nas manhãs sem nuvens
e as libélulas passam
lentas de luz
sobre os cedros.

Em intercepções do movimento
no silêncio do quintal
os gatos fogem
cinzentos, verdes, rápidos
desfocados pelo vento.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/Quasi Edições)

05/02/09

Elogio



O blogue META DES IGUAIS refere as Quintas de Leitura e elogia a anterior sessãod edicada à escrita de valter hugo mãe.
Para ler:


aqui e aqui.

O LADO MAIS NOSTÁLGICO DA POESIA DE DANIEL

O silêncio na lezíria.
O sossego claro
das tardes de setembro.

Ouve-se
entre os álamos
o espanto dos cavalos.

Célere azul das aves.
Garços olhos de cisne
repousando na distância.

Da luz diáfana oiço o filho
"aqui, pai, neste laranjal"
oferecendo grandes gomos
à parada claridade.

x

Entendem as folhas
a rapidez
com que se desprendem dos ramos.
Entendem as asas
a debilidade dos pássaros.

Acima de tudo
o que interessa a novembro
é as crianças poderem dizer
está vento
é sentirem-no arrebatar-lhes os cabelos
engolfar-se nos gorros
misturar-se na roupa quente.

Há uma criança na escola
que através dos vidros vê novembro -
e a meia-distância
ao lado do novembro
vê o anjo da guarda
a atirar pedras
lentamente contra a luz.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

04/02/09

Dia 19 de Fevereiro. Nas "Quintas de Leitura", pois claro!

Continuamos hoje a divulgar os poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues que serão lidos na sessão "O Acervo da Quietude".

Descanso ao longe próximo das lagoas.
O vento passando assim
dos eucaliptos próximo.

Escurece. Que horas serão na aldeia?

Mergulho os braços nas águas.
As aves entrecruzam-se. Afastam-se
e o silêncio poisa escuro
nas águas.

Oiço por instantes o vento. Revejo
a lua nas lagoas.
Alguém neste momento encara a noite
sente o frio
acende num gesto branco
a tocha antiga.

x

À noite
à ilharga do tempo
de mãos separadas
olhamos as estrelas.

Perdeste o isqueiro
e estás perturbada.
Tens razão:
deixaste para trás
um qualquer pertence
da realidade.

Hesitas se hás-de regressar
ao seu encontro
mas talvez te percas
exactamente aí
ao regressares.

Olha melhor as estrelas
é noite
e estamos à ilharga do tempo.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

03/02/09

(para ler clicar sobre a imagem)



"O ACERVO DA QUIETUDE". A TERCEIRA PRESENÇA DE DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES NAS "QUINTAS".

Mergulho nas profundidades do sono
e no escuro oiço as aves na claridade -
são tranças, tropéis de sonoridades a gotejar em leque
na amplitude de recônditos espelhos
da obscuridade guardiã dos aposentos,
reflectindo na minha face as cores novas do arco-íris.

E não são sonhos, cornucópias de fantasia,
nem o vento a norte da imaginação;
são sim envidraçadas portas abertas
quais projecções lilás na melodia do jardim
onde por vezes pela mão do fim da tarde,
difuso, potente berlinde, me encontro a mim.

x

Anoitece na aldeia
e numa animação de fábula
as pessoas recolhem às casas.

Das chaminés, pelos telhados
o fumo já faz parte da noite.

O amarelo das janelas
pontilha o preto.

O vento perdeu-se no bosque
e as crianças, nos cobertores
usufruem do medo.

Pelas imediações da aldeia
os lobos aproximam-se da realidade.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

02/02/09

A poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Passavas os dedos de leve
pelos espinhos dos cactos
depois pela suavidade das faces,
a blandícia descias aos braços
ao beiral da janela
aquecido pelas tardes de março.

Havia certamente borboletas azuis
esvoaçando o castanho das planícies,
ágeis animais percorrendo a luz
desdobrada dos olhos da tua janela.

Havia sobretudo tempo
para olhares as borboletas,
havia sobretudo espaço
para se estenderem as planícies.

x

Descem pelas colinas os animais que sonhas.
São grandes ruminantes fulvos
e descem cheios de sol
sobre as relvas.

Ao vento erguem e à claridade as cabeças.
Dir-se-ia serenos compreenderem muito bem
o céu pintado de azul e água.

Depois seguem. Descem mais.
Devagar chegam aos charcos
bebem
saboreiam uvas
deitam-se
certos de que os vais achar belos
e perfeitamente integrados na paisagem.

(Daniel Maia-Pinto Rodrigues, "Dióspiro"/ Quasi Edições)

Ana Free à revista LUX












Os leitores da revista Lux elegeram Ana Free Personalidade Feminina 2008 na área da Música. Assim, a Lux publica (com data de hoje) uma extensa entrevista à cantora que regressa a Portugal este mês para actuar nas Quintas de Leitura.